George Orwell, no livro 1984, descreve uma sociedade totalmente denominada por um partido político totalitário, cujo líder, conhecido como "Grande Irmão" é quem determina o que acontece na vida da população, com quem a pessoa pode se casar, o que ela pode comer, e até no que ela deve acreditar e pensar. Isso é feito por meio do controle da linguagem, através do que o autor chamou de "novilíngua", que é um vocabulário de palavras criadas pelo próprio partido, com significado definido pelo mesmo, por mais que a palavra, na realidade, signifique outra coisa, e que vai ficando mais restrito com o passar do tempo.
Na mídia brasileira, assim como na política, é possível perceber exemplos claros do uso desse artifício. O uso do termo "fake news", por exemplo. Acredita-se, quase que em consenso, que o termo seja usado para definir uma notícia falsa. No jargão jornalístico, quando isso acontece, dizemos que determinado jornalista ou veículo deu uma "barrigada". Na realidade, o termo, popularizado pelo atual presidente dos Estados Unidos, se refere a uma informação que não é verdadeira, mas que foi criada com o intuito de enganar o público. É um efeito dominó, a divulgação de uma fake news leva a criação de uma narrativa, por meio do apelo emocional, o que é a definição de outro termo bastante popular na atualidade: "pós-verdade".
Vários termos sociopolíticos também são usados dessa forma. Na vida real, um adepto de um partido como o da história de Orwell seria um fascista de acordo com a definição de fascismo dada pelo próprio Benito Mussolini, "tudo no estado e nada fora dele". Mas o conceito popularizado pelo governo do PT foi o de que fascista é aquele que não gosta do estado, o que na realidade seria um liberal (apesar de que os "liberais" brasileiros, com algumas exceções, não estão muito distantes do fascismo). Assim como muita gente ainda acredita que o conceito de comunismo ainda é o marxista, sem levar em conta as diversas mudanças pelas quais o pensamento comunista passou com o tempo, por meio dos estudos críticos da Escola de Frankfurt. Mas o caso mais grave talvez seja o da palavra "democracia". Ao pé da letra, o termo significa "poder do povo", mas para essa gente, anti-democrático é toda e qualquer decisão política que fuja ao poder do establishment. Ou seja, a palavra significa o seu exato oposto. Exemplo mais claro de novilíngua do que esse não existe.
Por isso, só mesmo em um país como o Brasil para existir algo como uma "CPMI das Fake News". Como se investiga algo que você nem sabe o que é? Se tem algo que a armação exposta com o pedido de demissão do juiz Sérgio Moro do Ministério da Justiça ajudou a revelar, e que no fundo todo mundo que consegue somar 2 + 2 já sabia, é que o intuito dessa CPMI é pura e simplesmente criminalizar a mídia alternativa. Para essa gente, print de Whatsapp adulterado é notícia de primeira página, enquanto as várias reportagens investigativas feitas pela mídia da direita são "uma rede de fake news" divulgadas por um "gabinete do ódio" localizado dentro do Palácio do Planalto e comandado por simpatizantes do presidente Bolsonaro. É chamar o povo de palhaço!
É atribuída a Orwell a frase que diz que "jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é propaganda".Sendo dele ou não, a frase é verdadeira. Por isso, a chamada "mídia alternativa" tem feito tanto sucesso e por isso ela é tão achincalhada. Embora ela venha servido prioritariamente como serviço de contra-informação, seu serviço vem se mostrando cada vez mais essencial. Veja a diferença de tratamento que recebe na rua um repórter da TV Globo e um do canal Terça Livre. A população sabe quem diz a verdade. E é por isso que, quanto mais a grande mídia demonstra sua sanha totalitária, mais ela cai em descrédito.
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